terça-feira, 17 de dezembro de 2013

116 – Invictus (Invictus) – Estados Unidos (2009)


Direção: Clint Eastwood
Personagem histórico várias vezes retratado - e de diferentes formas -, o sul-africano Nelson Mandela é mostrado aqui pelas lentes de Clint Eastwood no momento imediatamente após a queda do apartheid na África do Sul. Após várias décadas preso, Mandela está livre e na condição de presidente da África do Sul. Em 1995, o líder faz as vezes de anfitrião do campeonato mundial de rugby, uma oportunidade apropriada para reunir seus compatriotas.

Reproduzo aqui um texto que escrevi no dia da morte de Mandela:

Amanhã será um dia como qualquer outro, exceto pelo fato de que Mandela não estará mais vivo e que teremos o sorteio da Copa do Mundo na Bahia.

Sorteio esse que certamente será pautado pela morte do líder sul-africano. Certamente farão homenagens e o sorteio terá uma pitada apimentada de emoção. Sorteio esse que não será apresentado por Lázaro Ramos e Camila Pitanga, substituídos por um casal de brancos. Sorteio esse que será dirigido por europeus brancos, que dirigem a FIFA. Certamente se fará presente o atual prefeito de Salvador, ACM III. Prefeito esse que, até o ano passado, lutava junto com o seu partido na Justiça para derrubar as cotas, responsáveis por impulsionar a presença dos negros nas universidades. Prefeito esse que possui uma foto emblemática, tirada no dia de sua vitória eleitoral: ele comemorava com todos os seus amigos e políticos. Todos brancos. Exceto pela presença de um negro. Justamente aquele que lhe carregava nos ombros. Nem a sua vice-prefeita, propositalmente negra para arrecadar votos da população negra, saiu na foto.

Patrocinando o sorteio e a Copa, teremos marcas como Coca-Cola, Adidas, Visa, Sony, Itaú, McDonalds e Oi. Todas elas presididas e gerenciadas por brancos. Todas elas não costumam utilizar atores e modelos negros em suas campanhas publicitárias. E, na tela da TV, no meio desse povo, jornalistas da Globo. Brancos. À noite a emissora irá exibir um dos programas de maior audiência de sua grade: a telenovela Amor à Vida. Serão 82 atores interpretando papeis principais e secundários. 78 brancos. Apenas 4 negros: Jayme, uma criança órfã; Ailton, auxiliar de serviços gerais no hospital; Judith, psicóloga; e Inaiá, enfermeira e portadora de HIV. Ali Kamel, diretor geral da TV Globo é autor do livro 'Não somos racistas'.

Tudo e todos na Bahia. Bahia, cuja Polícia Militar é a que mais mata no Brasil. E os que mais morrem são negros.

Salvador, como todos sabem, é a Roma Negra, parte do continente africano. Aqui, se encontram os netos de Mandela. Vieram para o sorteio da Copa. E também para divulgar o projeto 'De Soweto a Salvador'.


Definitivamente, Soweto é aqui.


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7 comentários:

  1. Olá, Az. Comentar um filme é bem mais fácil do que comentar uma postagem sobre a realidade e ainda mais sobre a realidade de tantas falsas aparências. Parabéns pelo texto.
    Que direi então quando, em mim, emoção e razão se misturam, quando, às vezes, me deixo levar por um sentimentalismo verde-amarelo, que embora com todas polemicas, eu tenho que assumir que foi arrepiante ver Margareth Menezes e o batuque do Oludum cantando a Bahia na abertura da copa. Dizer também que eu gostei ver a copa na África do Sul, apesar de todos os pesares; gostei de ver Mandela, Desmond tutu e todas aquelas vuvuzelas ressoarem e terem conseguido se fazer escutar e que aquela copa fez visível muito mais que os jogos, ela mostrou a vilania presentes, mostrou o quanto se precisa lutar pela igualdade, revelou que tão forte quanto essa luta existe ali uma gente cheia de orgulho por ter esfregado na cara de muitos – um grande sim, nós temos competência para organizar um evento internacional e fizeram. Gostei de ver que a felicidade estampada na cara do povo. Ver que essa felicidade não era apenas pelo objetivo, mas que ela é parte presente do caminho, gostei de saber sobre a história das vuvuzelas, enfim aprendi que o sorriso sincero e aberto no rosto de tanta gente sofrida é melhor que DNA, porque é contagiante. Do mesmo modo, gostei de ver agora, nesses dias, o povo sul africano dançando e celebrando, apesar das adversidades, o afeto pelo momento da passagem do seu maestro da liberdade, foi como ler nas entrelinhas que a tristeza e a dor junto do sorriso não abandona nem apaga a luta, mas acende por novas maneiras de lutar, fico pensando que se as lutas dos oprimidos forem feitas pelas mesmas armas dos opressores, apenas nos igualaremos a eles.Não acredito na inversão da opressão, acredito que é pela possibilidade de fazer diferente que se rompe os ciclos da repetição.
    Não sei de muita coisa, mas concordo que é muito triste, a acirrada perversidade dos brancos, donos do poder, no qual a manipulação da copa é só uma faceta, na qual as multinacionais maquiadas com suas propagandas tão “adocicadas” tentam ocultar exploração os povos através trabalhos escravo em todas as partes do mundo.
    Quero crer que talvez já sejamos menos tolos que ontem, mesmo sabendo que escravidão e as condições sub-humanas, de hoje, trazem uma complexidade macabra e as formas de subjugação são metamorfoseada de tantos modos que me deixa tonta. Isso só me leva a pensar que algumas bandeiras de lutas dos oprimidos acabam por ser mais favorável a opressão do que a libertação, isto é, quando vejo algumas lutas sustentam, mais o imperialismo do que o combatem e que há muitas ideologias separatistas que são pró-formas forjadas para desviar nosso olhar ocultando assim os verdadeiros inimigos.
    Por fim tenho que confessar que minha emoção é burra, ver a bandeira brasileira tremulando por vitórias do povo brasileiro me arrepia, Enfim, eu queria que fizéssemos uma copa linda, que o Brasil pudesse mostrar mais que a face alienada, mais que a face intelectualizada que torce o nariz para os festejos para os quais a hierarquia dos louros catedráticos perde seu sentido, e que possa ser visto também a face de repúdio do povo brasileiro naquilo que de verdade deve ser repudiado, queria que nós, assim como povo sul africano, tivéssemos orgulho de ser o que somos. E como cantou Margareth “We are the world” se somos o mundo então Soweto é aqui. E nós somos essa grande colcha de retalho chamada Brasil.
    Hoje não vou pedir desculpas pelo texto grande, Só agradecer o passe para o toque da bola e o espaço para divagação,
    Abraço
    Soli

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    1. Engraçado que no dia que li seu comentário, poucos antes estava refletindo sobre a (im)possibilidade de soluções harmônicas e se seria inevitável que a luta do oprimido pela superação da opressão lhe levaria a assumir o papel de opressor. Definitivamente, não é fácil. Mas, seja lá no que der, é e sempre será legítima a luta dos oprimidos para superar as injustiças em que estão submetidos. Nesse sentido, Mandela é uma luz! E o esporte, continua sendo um grande instrumento político e humanitário. Que a nossa Copa possa dar uma contribuição não só econômica, mas também política, social e humanista!
      Mais uma vez te agradeço pelas reflexões e por usar esse espaço para irmos além da tela grande!
      Grande abraço e um ótimo Natal para você e sua família!!
      PS - Não sei se você leu a minha resposta ao comentário anterior a esse filme... mas lhe tirei no amigo secreto e queria te enviar uma lembrancinha. Só preciso de um endereço, para que Papai Noel possa levar! Se puder, me passa por email, que eu entrego a ele! 366filmesdeaz@gmail.com
      :)

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  2. Gostei de como você relata os fatos do filme, parabéns pelo seu site gostei bastante.

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  3. Olá Az
    Quero te dizer que o Papai Noel passou aqui sim de trenó e molhado de chuva, deixou cá os seus votos de Feliz Natal, espero que tenha deixado os nossos aí também.
    Nossa! Você me pegou de surpresa, quer dizer que você me tirou de amigo x? Divertida sua idéia, mas então fiquei pensando se passar meu email ou endereço eu tornarei conhecida e deixarei de ser amigo oculto, e aí a brincadeira acaba. Então fica assim continue postando seus filmes e comentários que já são um grande presente e eu continuo como amiga X e assim eu posso continuar sendo apenas essa oculta andarilha de ideias, ou melhor, essa intermediária de ideias andarilhas que sempre pousa por aqui para trocar algumas delas.
    Aproveite esses dias de festa e tenha uma feliz confraternização pela passagem de ano.
    Abraços

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    1. :)
      Faz sentido!
      Ficamos assim, então. De qualquer forma, desembrulho o presente e te digo qual foi: o livro "A primavera do dragão" - Nelson Motta. Se puder, leia, acho que irá gostar.
      Fique também com o meu "feliz ano novo" e agradecimentos por mais um ano fazendo desse blog um cantinho especial.
      Um ótimo 2014 para você, para sua família e para tudo e todos que te faz bem!!
      abraços,
      Az

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  4. Olá Az
    Isso que é amigo. Obrigado por ajudar a desembrulhar o presente, e não é que eu tinha intuição que era um livro mesmo?! Posso dizer, tenho algumas reticências bobas quanto ao biógrafo, mas eu sou tão fã da loucura pensante do biografado que de cara já gostei do presente. Creio que o cinema brasileiro precisa se glaubelizar para fazermos um cinema mais com nossa cara.
    Tem uma lenda que acabei de inventar que diz que os dragões foram encantados e transformados em “calangos” e pelo Brasil foram espalhados uns tantos deles e Glauber era um desses “calango” arretado de bom que não apenas fez cinema, mas incorporou a arte, ele era a arte em movimento.

    Obrigado pelo presente. Guardei a indicação, depois que ler ti conto
    Obrigado por partilhar
    Abraços
    Soli

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