segunda-feira, 11 de novembro de 2013

102 – A vida louca (La vida loca) – Espanha/El Salvador (2010)


Direção: Christian Poveda
O documentário La Vida Loca é o último trabalho de um jornalista engajado, na mais fiel acepção da palavra. O filme custou a vida do diretor, o fotojornalista francês Christian Poveda, que voltou sua câmera para os maras, gangues de jovens salvadorenhos. Acabou assassinado possivelmente por integrantes desses grupos. O crime, que mobilizou a organização Repórteres Sem Fronteiras e teve repercussão internacional, ocorreu em Campanera, perto do centro da capital, San Salvador.

Sobretudo, um filme forte. O que o documentário registra é tão impactante que parece se tratar de uma ficção.

Em El Salvador, maras (gangues) batalham entre si e contra a polícia. Até aí, nada de novo. No Brasil, isso é uma realidade presente. Grupos organizados e seus rivais estão em todos os segmentos: tráfico de drogas, torcidas organizadas, bairros, etc.

A principal diferença está literalmente visível nos rostos de cada um. As tatuagens espalhadas pelo corpo e na própria face dos membros das gangues causam um imediato estranhamento. Jovens de 18 anos, com seus rostos tatuados, sinalizando uma total entrega à sua mara. Muitos deles órfãos desde pequenos, sem família, sem estudos, sem perspectivas e que encontram em um grupo de semelhantes o seu porto seguro. A ele, a dedicação de uma vida. Também literalmente, já que a morte precoce é o destino mais provável.

Aliás, a morte é explorada de uma forma bastante invasiva. Em alguns momentos a impressão é que estamos diante de um desses programas policiais de meio-dia. A câmera chega perto do cadáver, sem pudor, sem respeito. De forma crua! Pouco a pouco, os jovens acompanhados pelo diretor são assassinados. E lá estão eles – o diretor e sua câmera – registrando o que restou do indivíduo que, tempos antes revelava ao documentarista um pouco de sua vida. Vida e morte separados por alguns poucos frames e unidos por balas de revólver.

O grande choque de realidade, que nos devolve a noção de que aquilo não é brincadeira e nem se trata de ficção, é saber que o próprio diretor, Christian Poveda, foi um dos que perderam a vida. Em setembro de 2009 seu corpo foi encontrado próximo de um dos bairros controlados pelas gangues. Semanas antes do lançamento de A Vida Loca.  Em 2011, 11 acusados foram condenados, em um julgamento contestado pela organização Repórter Sem Fronteiras, que acompanhou de perto o caso.


De herança, Christian Poveda deixou esse impactante documentário, que inevitavelmente mexe com os sentidos do espectador. Após assisti-lo, é missão quase impossível não dormir pensando em tudo que acabou de ver.


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