sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CRÍTICA 01 - Django Livre (Django Unchained) - Estados Unidos (2012)



Obra e autor, para quem vive a história, são indissociáveis. Ao menos que o indivíduo seja um desavisado e caia de pára-quedas em um livro sem se dar conta de quem o escreveu, ou mesmo qual o passado desse escritor, é inevitável que o histórico do autor agregue valor à sua própria obra.
Recentemente, o Washington Post realizou uma experiência interessante. O jornal colocou uma violinista para tocar músicas clássicas em uma estação de metrô, durante 45 minutos. Apenas 6 pessoas pararam para ouvir e o artista conseguiu arrecadar 32 dólares de “couvert”. O que nenhum dos transeuntes sabia é que esse indivíduo era um dos maiores músicos da atualidade, tocando com seu violino que vale mais de 3 milhões de dólares, e que dois dias antes ele havia lotado um teatro em Boston, cujo valor do ingresso foi de 100 dólares.
É ingenuidade, portanto, desassociar autor e obra. Aí que entra Tarantino. É praticamente impossível analisar qualquer novo filme de forma crua, recortada. Inevitavelmente são levadas em consideração todas as suas grandes obras do passado, além de se influenciar pela própria áurea que o diretor possui. Essas variáveis acabam criando uma expectativa sobre o seu próximo lançamento, difícil de ser administrada.



Por isso, quem se empolgava com algumas técnicas recorrentes na filmografia de Tarantino, pode ter se decepcionado com Django Livre. Nele, não tem Brad Pitt olhando para a câmera e dizendo “essa é minha obra-prima” (Bastardos Inglórios), não tem Uma Thurman (Pulp Fiction) desenhando um quadrado na tela, e, sobretudo, não tem um quebra-cabeça narrativo. Pelo contrário, o filme possui uma linearidade convencional, o que não é o maior forte do diretor.
A narrativa é extremamente clássica, cuja estrutura é facilmente encontrada nos famosos manuais de roteiro, ou em qualquer livro de Doc Comparato. As ações e acontecimentos são previsíveis e clichês. E é justamente aí que Tarantino faz a diferença. O que poderia parecer um déficit de criatividade do diretor, revela uma própria originalidade. Considerando todo o histórico de Tarantino e de tudo que ele foi capaz de fazer, é fácil concluir que Django Livre é clichê do início ao fim por pura opção estética do diretor, que resolveu não sobrepor suas “modernidades” ao clássico, fazendo da narrativa padrão a sua própria prisão. E foi dentro desse limite que Tarantino buscou desenvolver o seu diferencial.



Se as soluções fáceis no roteiro, modéstia do enredo e a pouca utilização de técnicas mirabolantes não são recorrentes na filmografia de Tarantino – talvez não muito animadora para parte de seus fãs – por outro lado ainda é possível perceber elementos tarantinescos em diversos momentos.
Quem gostava de Jules recitando sua passagem bíblica antes de cometer sua próxima execução (Pulp Fiction), ou da dança sensual de Arlete (À prova de morte), certamente vai ficar empolgado com as esquetes contidas em Django, sobretudo a da Ku-Klux-Klan, que tira as maiores gargalhadas do filme. Isso sem falar nas já consagradas seqüências de tiroteio, com muita plasticidade e sangue. As de Django ficam atrás de Kill Bill e de Cães de Aluguel, mas mantém o alto nível tarantinesco. As diversas referências também são preservadas.



O filme, portanto, preserva alguns elementos tradicionais de Tarantino, mas que não necessariamente apresenta uma evolução ou superação. No máximo, mantém o nível. A grande novidade, talvez, seja mesmo o roteiro padrão e clichê - provavelmente uma opção estética do diretor. A textura das imagens, os planos, a trilha sonora e os movimentos de câmera – incluindo os zooms repentinos e de supetão, no melhor estilo de Sergio Leone – preserva a estética dos spaghetti western, mas pode ser indigesto aos espectadores de Tarantino, acostumados com algo um pouco mais complexo.
O conteúdo, no entanto, caiu bem no estilo do diretor, ousado e provocador. Ele que já tinha “mudado os rumos da história”, ao assassinar Hitler em Bastardos Inglórios, novamente criou um personagem ficcional a partir de um contexto histórico real. Com isso, esfregou na cara da sociedade preconceitos da época que hoje alguns deles são capazes de provocar risos, como a indignação de Stephen (Samuel L. Jackson) ao saber que Django dormiria na casa grande. Aliás, a coragem de pular o moralismo puritano e criar personagens negros dotados de preconceito e racismo é algo que poucos fazem, dentre eles Spike Lee que, paradoxalmente, acabou se posicionando contra a iniciativa de Tarantino, de pegar um acontecimento histórico que matou e explorou milhões de negros, para fazer o seu bang-bang.



Django, portanto, tem suas oscilações, mas fruto da inevitável fusão entre obra e autor. O desafio de um grande diretor como Tarantino, que produziu grandes obras ainda jovem, é de se superar a cada filme, pois todas as expectativas estarão voltadas nele. Nisso, creio que Django não foi capaz de conseguir, já que Bastardos Inglórios, seu penúltimo filme, foi de um nível bastante elevado. Se Django não tivesse sido feito por Tarantino, poderia ser considerado um filme excelente. Mas, como é sabido que foi ele que fez, a expectativa é que Django fosse melhor.
Mas, isso talvez nem seja importante para Tarantino, que, literalmente, está se explodindo.



11 comentários:

  1. Para variar, excelente texto. Me convenceu sobre a linearidade da trama, mas, mesmo depois de tudo posto e discutido, continuo achando que não gostei mais do filme por conta do argumento extremamente vulnerável. Em nada prejudicaria o resultado final - mesmo considerando proposital essa tal linearidade clássica - se, em vez de um motivo bobo para a aproximação de Django e Schultz tivéssemos um outro mais inventivo e imprevisível, muito ao contrário. Mas não é por isso que não achei um bom filme. Poderia ter sido melhor, esperava mais, mas achei bom. Esqueceu a nota, qual será?

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  2. Ou seja, você não criticou o filme em si, você criticou as técnicas do diretor baseado em suas expectativas e comparou o filme com outros do mesmo diretor. Na hora de fazer uma critica a qualquer filme busque assisti-lo e não deixe se influenciar pelo nome diretor.

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    1. Engraçado, esse anônimo! Criticar as técnicas usadas não é criticar o filme? Desde quando? Se ainda fosse um romancinha, vá lá, poderia criticar a trama, como se faz com as novelas nas revistas de fofoca... E como alguém poderia saber criticar as técnicas sem assistir ao filme isolando as expectativas? [Se tem uma coisa que me faz falta nas redes sociais são comentários engraçados. me divirto]

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    2. eu quis dizer: romancinho, diminutivo de romance.

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    3. Anônimo,
      o que eu tentei deixar claro no texto foi justamente a dificuldade de "não se influenciar pelo diretor". Se eu não soubesse quem ele era, talvez eu tivesse achado a previsibilidade do roteiro fruto de limitações do autor. Mas, justamente por saber quem ele é e conhecer as técnicas que ele costuma utilizar, é que concluí que isso foi uma escolha voluntária, com intencionalidade.
      E já que eu estava analisando algumas técnicas, levando em conta a própria bagagem de Tarantino, era inevitável comparar e fazer referências a tais filmes, até para embasar aquilo que eu estava dizendo.
      Além disso, busquei uma reflexão sobre algo que me chamou atenção, não busquei fazer uma crítica completa e definitiva. Não toquei em diversos elementos que poderia ter tocado (caso queira, posso indicar boas críticas sobre Django, que abordam o filme com outra perspectiva, diferente da minha).
      Sobre ser crítica ou não, fique à vontade para nomear como quiser. Não tenho muitas pretensões quanto a isso. A ideia é só trazer uma argumentação crítica sobre determinada percepção...
      um abraço

      PS - Calma, Vanessa! haha

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  3. Mas é muito legal a maneira que ele literalmente explode a elite americana branca ignorante no filme, isso acho incrível demais, não sei se Spike Lee teria essa petulância, gostei imenso das interpretações, como é incrível, os atores crescerem sob a sua batuta, parece mágico isso, Samuel L Jackson como um papagaio de pirata é um espetáculo, o público a minha volta todos riam.

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  5. Nao sou grande entendedor de tecnicas e muito menos de criticas. Mas sou um fanatico por filmes e cinema, e devo dizer que a muito tempo nao me surpreendia tanto com um filme. Nao falo do roteiro em si pois, de fato, ele é bem previsivel. O que quero dizer é que nao esperava gostar tanto deste filme. Ultimamente os filmes estao caindo num marasmo de bobagens que fica dificil me lembrar de algum filme recente que tenha me empolgado tanto quanto esse.

    Como ja disse, nao sou critico e nao entendo das tecnicas para poder expressar uma opiniao mais apurada, portanto, deixo isso para os especialistas. Porem, posso expressar o ponto de vista de um expectador comum ao assistir Django. Fiquei maravilhado com a forma com a trilha sonora, com as interpretações de todos, e ateh mesmo com o roteiro ( previsivel mas, muito saboroso ).

    Esses dois personagens sao muito cativantes, o Dr Shults e o DJango.

    Esse filme voou para a primeira posicao na minha top list de filmes favoritos ;)

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    1. Kallango,
      concordo 90% contigo... assino embaixo dos seus comentários sobre os personagens cativantes, a ótima trilha sonora, e até mesmo sobre esse filme ser um diferencial, que foge do "marasmo de bobagens" que predomina no cinema.

      Em relação às técnicas... acho que o mais importante é como se dá a percepção. Ser "entendedor" ou não das técnicas não legitima a percepção do filme. No final das contas fico com a máxima de que o importante é gostar do filme. Supostamente posso ter uma visão mais técnica dos filmes, o que não significa que minha percepção vai ser mais legítima que a sua. É por isso que, no final das contas, concordo quase plenamente contigo. As únicas coisas que eu discordo é que, para mim, alguns pontos do roteiro poderiam ser um pouco melhores... e que ele não faz parte do meu top list. Fora isso, como eu disse, concordo 90% contigo.

      Você viu Bastardos Inglórios? Muito bom, não é?
      abraço

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  6. "Se Django não tivesse sido feito por Tarantino, poderia ser considerado um filme excelente. Mas, como é sabido que foi ele que fez, a expectativa é que Django fosse melhor"

    ...muito boa a analise, concordo muito... é exatamente este o desafio dos grandes artistas, superar suas próprias obras... bom para eles...

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    1. hahaha... finalmente alguém concorda comigo! :)

      mas é isso aí... não tem jeito, o autor agrega valor à obra, é muito difícil fazer essa dissociação. Tarantino é um grande diretor, um dos maiores dos tempos modernos... ele que se vire para superar ou pelo menos manter o seu alto nível... "bom para eles" mesmo.

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