quarta-feira, 13 de junho de 2012

117 - Barravento (idem) – Brasil (1962)


Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha; Luiz Paulino dos Santos; Jose Teles
Pescador educa-se na cidade e volta para a vila onde nasceu. Tenta, com dificuldades, mudar certos costumes do local.

Trechos do livro A Primaverado Dragão, de Nelson Motta, lançado em 2011 pela editora Objetiva:

“Em Buraquinho, a duas horas de jipe de Salvador, a maior parte por estradinhas de terra e pela areia, começaram as filmagens. Nos três primeiros dias Glauber não apareceu, para deixar Paulino mais à vontade.

Na manhã do quarto dia, mal chegou ao set, Glauber foi recebido pelo assistente Telles com péssimas notícias. Paulino e Sonia brigavam o tempo todo, ela queria cada vez mais presença, destaque e closes, e Paulino, cego de paixão, estava desviando todo o filme para a personagem dela e criando um clima péssimo com a equipe.

Quando foi demitida por Glauber, Sonia chorou e esperneou, disse que largaria Paulino se saísse do filme. Mas estava fora. Entre as duas paixões, Paulino abandonou seu sonho de fazer cinema, rompeu com seus amigos, ameaçou dar tiros e convocar a fúria dos orixás, e seguiu com Sonia.

Glauber perdeu o amigo e ganhou o filme.

Em Barravento, o candomblé seria mostrado por Glauber como o avesso da visão europeia da macumba para turista, com toda a sua força e autenticidade, na beleza selvagem de seus rituais, mas também criticando como um ópio do povo, que o alienava e imobilizava pelos misticismo e o impedia de se conscientizar de sua força e de seu papel revolucionário.

Já no final das filmagens, Glauber foi a Salvador ver Helena e Paloma, suas filhas de seis meses, homônima das filhas de Picasso e Jorge Amado. Contou a Rex que faltavam poucos takes, que a fotografia estava maravilhosa, e o filme menos místico e mais político. Mas Rex estava preocupado. Não havia nenhum nu? Artístico, é claro. Não, e nem haveria, Glauber não via nenhuma necessidade dentro do roteiro.

Nervoso e constrangido, mas tentando manter a frieza profissional, Glauber filmou, em noite de lua cheia à beira do mar, o esplêndido corpo preto de Luiza rolando na areia branca de Buraquinho.

Com as latas de Barravento na mala, Glauber partiu para o Rio de Janeiro com Roberto, que faria a dublagem e a trilha sonora de A Grande Feira. Não havia dinheiro para levar e hospedar Helena, Luiza e Geraldo, que perderiam seus sotaques baianos quando fossem dublados pela catarinense Edla Van Steen e os cariocas Norma Bengell e Jece Valadão.

Glauber também faria as dublagens de Barravento, mas quando abriu as malas viu que tinha esquecido, ou perdido na Bahia, todas as anotações com os diálogos do filme. E como boa parte deles foi improvisada, seria impossível dublar os atores porque não se sabia o que diziam. A solução foi contratar um surdo-mudo craque em leitura labial para decifrar e datilografar os diálogos. Pena que o mudinho fosse carioca e não entendesse o “baianês” dos atores. Só a chegada de um deficiente auditivo baiano permitiu que os diálogos fossem recuperados e dublados.

Com passagem só de ida do Itamaraty e 300 dólares no bolso, Glauber partiu com Barravento para Karlovy-Vary, na Tchecoslováquia, onde Nelson estivera com Rio, Zona Norte um ano antes. No final, o italiano Pier Paolo Pasolini ganhou o Globo de Cristal com Accatone e Glauber recebeu eufórico o Opera Prima dos estreantes com Barravento.

De volta a Roma, promoveu uma sessão para personalidades do mundo cultural, e o grande romancista Alberto Moravia se impressionou tanto que lhe dedicou uma longa e entusiasmada crônica na revista L´Espresso:

É um dos filmes mais belos que temos visto ultimamente. Particularmente o que mais impressiona no filme de Glauber Rocha é o fato de que a magia não é representada como um fenômeno folclórico mas como uma tentação, um fascínio e um desejo de retrocesso e anulação.”


Minha nota: 8,5
IMDB:  6,9
ePipoca: 6,6

Download:

4 comentários:

  1. Esse é muito bão!

    *Fiquei um tempão sem passar por aqui, tem muito filme pra ver e muito texto pra ler. (:

    ResponderExcluir
  2. Como queria o poster desse filme... É lindo!

    ResponderExcluir