sexta-feira, 8 de junho de 2012

112 - Capitães da Areia (idem) – Brasil (2011)


Direção: Cecília Amado; Guy Gonçalves
Roteiro: Hilton Lacerda; Cecília Amado
Na capital baiana, nos anos de 1930, menores abandonados que vivem nas ruas se unem para enfrentar suas dificuldades. Conhecidos como "Capitães da Areia", os jovens são liderados por Pedro Bala, praticando assaltos pela cidade. Adaptação do romance escrito por Jorge Amado.

Decepcionante!

É uma pena ver um filme brasileiro, baiano, baseado em um dos melhores livros de Jorge Amado, ter uma adaptação para o cinema tão amadora. A diretora é amadora. O elenco, despreparado. A fotografia medíocre, se salvando em alguns momentos. O único que parece visivelmente profissional é Carlinhos Brown, com sua trilha sonora na medida.

Nem sei por onde começar...

O roteiro? Bem, o roteiro até se esforçou, mas não conseguiu fugir do fantasma que persegue o cineasta diante de uma adaptação literária. Existem os que ousam, chutam o pau do barraca da versão original e fazem um filme autêntico – isso, por si só, não garante um bom filme. E têm outros que tentar ser bem fiéis. Foi o caso de Capitães, que tentou botar livro demais no filme, que não suportou. Resultado: seqüencias desnecessárias, que quebravam o ritmo da história e afastava ainda mais o sentido do filme. Por exemplo, a seqüência do assalto à casa em que Sem Pernas morava. No livro, ela tinha uma importância muito grande, trazia um dilema pessoal do personagem. No filme, não dava tempo para explorar essa questão, mas, ao invés de cortá-la, preferiram botar assim mesmo. Só que no cinema, ela não colou.

Já a montagem, destruiu ainda mais o ritmo da coisa, sobretudo na primeira metade do filme. Ficou todo recortado, pedacinho por pedacinho, caco por caco. Faltou deixar a história correr rio abaixo. Imagino que o material bruto do filme deve ter deixado o montador e o diretor desesperados, mas isso não justifica a sua fragilidade técnica.

Já a interpretação... Ah, a interpretação! O ponto mais comentado pelos espectadores. De fato, foi constrangedor ver a exposição dos atores mirins. O elenco estava totalmente despreparado, com raríssimas exceções. O pior de tudo é que nem todos eles são ruins, como aparentam. Muito pelo contrário! Tem gente ali muito boa, que hoje já cresceu e atua muito bem. Alguns formados no CRIA, a exemplo de Macarrão, e que tem tudo pra decolar no teatro e no cinema. Mas em Capitães ou foram sub-aproveitados, ou tiveram suas fraquezas excessivamente expostas. Não sei se foi culpa da preparação do elenco, da direção ou da própria limitação técnica dos atores, na época. Não sei que merda foi, mas ficou feio. Faltou naturalidade, verdade. E isso, aliado ao roteiro e à montagem, resultou em filme muito artificial.

A Bahia merece mais. Reconheço e valorizo a superação dos produtores e artistas envolvidos, em superar todas as dificuldades econômicas impostas e fazer um filme muito bem produzido, com bons equipamentos e qualidade na imagem. Mas o lado humano pesou. Às vezes, o tiro sai pela culatra.

Vida longa ao cinema baiano! Vida longa às obras de Jorge Amado!


Minha nota: 6,0
IMDB:  6,3
ePipoca: 5,2

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5 comentários:

  1. Olá, seu blog é muito bom, parabéns pelo trabalho. Qto a este filme, compartilho sua opinião, fiquei decepcionada, uma pena o que fizeram com minha obra preferida de Jorge Amado.
    abs
    Cal

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    1. Uma pena mesmo! Jorge Amado merecia muito mais!
      obrigado pela visita.
      abraço!

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  2. Olá Az
    Antes de qualquer coisa um pedido de desculpa pela escrita longa, obrigado pelo espaço de brincar de escrever.
    Em dia das Crianças, bom falar das crianças de todos os dias. Lemos Capitães numa época em que ser parte de uma turma daquela povoou o imaginário dos guris daqui, . Assistimos Capitães com aquela lembrança, não tinha lido o seu comentário, li agora pouco quando vi no “sugestão do mês” e temos que concordar também esperávamos outro filme, foi mesmo uma decepção.
    Mas depois fiquei pensando que talvez estivesse exagerando porque a minha expectativa era fundada não na lembrança do livro de Jorge, mas sim a lembrança da leitura que eu havia feito do livro, quem não sonhou ser um Pedro Bala, o professor ou valente como a Dora , e em minha leitura vou ser sincera nunca vi aqueles meninos como sendo da década de 30, eu, ao meu modo, os tornei contemporâneos e vi aqueles meninos como sendo do fim do século.
    Então meu olhar em relação ao filme deu uma mudada, porque vi como seria difícil trazer para o cinema a Salvador dos anos 30, talvez isso justifique uma fotografia tão limitada, por falar nisso, o filme teve erros de locação já que em uma externa perto do Lacerda aparece a Escultura “Fonte da Rampa do Mercado” só que dei uma pesquisada ela é de 1972, então ela não poderia aparecer.

    Agora o que me chamou mais atenção foi que filme foi muito preservacionista, não estava coerente com a obra de Jorge, será que isso foi preocupação com os valores morais defendidos por certa parcela da sociedade, sob a égide do discurso moral do politicamente correto? Fica a dúvida, ainda mais que já ouvi opiniões de que as obras de Jorge Amado, publicadas no exterior, foi o primeiro cartão de visita para prostituição gringa na Bahia. Então deve ser preocupante trazer para tela um filme que abordando criança num contexto tão “delicado”.
    Acho que o filme foi bem cuidadoso em não ferir suscetibilidades, foi zeloso em não trazer para imagem da Salvador turística a estigmatizada ideia de menores delinquentes. Para falar verdade os pontos turísticos de Salvador nem aparecem, a não ser em uma ponta ou outra, Jorge escreveu um livro falando das gentes, mas atualmente qualquer coisa toma grandes proporções, se transformam em questões tão complexas e que precisa-se de ter cuidado com o que vai ser dito para não dar margem as apologias, sejam elas quais forem. E assim se vai perdendo a leveza de dizer por dizer.
    O filme não foi fiel ao livro, mas foi fiel a uma superficialidade que se fez brotar de lá. A impressão que fica é que o livro é aceso e o filme apagado, nele faltou alma, faltou o respirar soteropolitano. Fico pensando se a arte é a pedra de toque que nos faz pensar sobre nós mesmo e o mundo que nos rodeia, o filme pode levantar a bola para pensar se já não somos nós que perdemos a naturalidade de interpretar a nós mesmo e aí o artificialismo expresso do filme seja o apenas o reflexo dos muitos artificialismos que compõe nossa Xerox autenticada que pensamos ser autenticidade.
    É um filme que vale a pena ser visto e ser comentado, ainda que para dizer que a Salvador ali apresentada não tenha encontrado eco no pedacim de Salvador que mora em mim. Se por um lado faltou Emoção, por outro, mostrou o trabalho de uma Razão em não comprometer Salvador e suas crianças dos olhares preconceituosos, talvez esse gesto possa ser traduzido em uma forma de amor consciencioso, talvez medroso, talvez pouco criativo, ainda sim, para esse caso cabe o que já dizia o “pueta” : Qualquer maneira de amor vale a pena , qualquer maneira vale amar.
    Abraço
    soli

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    1. Soli, eu é que me desculpo pela demora em responder. Pouco tempo para postar, e muito o que refletir sobre seu comentário.

      Eu (e acho que a maioria) sou muito mais exigente com filmes nacionais do que com estrangeiros. Não sei quais os motivos, mas é natural. Talvez seja pelo fato de conhecermos tão bem aquele cenário, discursos, valores, sotaques. Nos filmes nacionais até uma escultura datada nos faz diferença, enquanto em filmes estrangeiros tais detalhes passam despercebidos. Creio que por tudo isso meu nível de exigência é maior e, consequentemente, maior a chance de frustração. Paciência, não tem jeito.

      Sei que o filme enfrentou vários problemas técnicos, sobretudo com os atores. Parte do filme teve que ser dublado em estúdio, pois a dicção da fala dos meninos estava péssima no original. A atuação, infelizmente, também foi muito ruim. Ao menos, fico feliz em ver o quanto alguns deles já evoluíram de Capitães pra cá, se saindo bem nos palcos soteropolitanos. Mas, no filme, essa fragilidade pesou.

      Não sei o quanto essa questão que você trouxe, da possibilidade da diretora querer preservá-los, de fato ocorreu e interferiu no filme. Mas essa sua viagem, por si só, já permite viajar para além-Capitães. O valor contemporâneo que um diretor aplica dentro de um contexto, mesmo se baseando em uma obra de outrora, com valores e preocupações diferentes. O quanto ele pode priorizar sua equipe, em detrimento de seu público. O quanto ele pode usar a arte para defender ou não prejudicar sua cidade, mesmo que para isso precise desvirtuar obras de terceiros. Enfim, seu comentário permite abrir várias portas e viajar em cada uma delas.

      Te agradeço por permitir essa reflexão.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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