segunda-feira, 14 de maio de 2012

87 - Habemus Papa (Habemus Papa) – Itália (2011)



Direção: Nanni Moretti
Roteiro: Nanni Moretti; Francesco Piccolo; Frederica Pontremoli
Após a morte do Papa, o Conclave reúne-se para eleger o seu sucessor. Mas os fiéis amontoados na praça de São Pedro esperam em vão que apareça na varanda o novo soberano. Este último não parece pronto a suportar o peso de tal responsabilidade. O mundo inteiro será atormentado pela inquietude, enquanto no Vaticano se buscam soluções para ultrapassar a crise.

Ainda não entendi bem o que Nanni Moretti quis dizer com Habemus Papam. Eu acompanho o diretor a longa data e sei da sua personalidade forte, sobretudo para tratar de temas políticos. Talvez tenha sido por isso que fiquei um pouco confuso, já que eu esperava uma postura bastante agressiva em relação ao Vaticano, tal como ele fez em Crocodilo, quando o alvo era o eterno cacique italiano Sílvio Berlusconi.

No entanto, acho que o que Nanni Moretti tentou passar é o abismo existencial que separa o homem sagrado, divino, que veste um manto papal e conduz milhões de católicos mundo a fora, e o ser humano por trás de toda essa simbologia. E, com isso, mostrar o quão defasada está a Igreja Católica, pois está cada vez mais distante das necessidades, prazeres e cultura do homem moderno, em pleno século XXI.

A Igreja Católica vive um dilema difícil de superar. Quando ela criou os dogmas e regras de conduta e valores, há milênios atrás, talvez ela não esperasse que, após tanto tempo, ainda haveria pessoas tomando como verdade tudo que foi posto. E não calculou que os homens e mulheres do futuro passariam por transformações que tornariam defasadas muito do que a Igreja estabeleceu não apenas como verdade, mas como princípio para que todo seu discurso possuísse lógica.

Estamos em 2012. Não é tão simples sustentar algumas coisas como: doenças são pragas de Deus; a mãe de Jesus era virgem; Moisés abriu o mar. É difícil acreditar que Deus mora no céu, sobretudo porque hoje – ao contrário de antigamente – já se sabe que, após o céu azul que enxergamos existe a Estratosfera, depois a Mesosfera, depois a Termosfera, depois a Exosfera e mais depois temos uma galáxia, um universo, composto por milhares de planetas, estrelas, poeira, vácuo. Se Deus possui residência fixa, certamente não é no céu. Muito mais difícil é continuar acreditando que debaixo da terra existe um inferno. É sabido que lá embaixo o que se tem são camadas de Manto e Núcleo.

Não dá mais para vender passagem para o céu, nem perseguir mulheres, nem queimar livros, nem explorar índios, muito menos matar cientistas. Continua difícil manter-se machista, quando o mundo tem sido cada vez mais das mulheres; nem ser contra o uso da camisinha enquanto o HIV está por todo o planeta; nem defender o celibato, enquanto todo dia sai uma nova notícia de padres pedófilos.

Ou seja, não é tão simples ver cada um de seus dogmas e condutas morais serem, dia após dia, sucumbidos por uma cultura cientificista, que busca o conhecimento, a liberdade e o livre arbítrio. Portanto, não deve ser fácil ser um papa. Tem que ter muito jogo de cintura, para dizer que, ao contrário do que sempre foi dito, não é verdade que a mulher saiu da costela de Adão – “é só uma questão de interpretação, a bíblia é pura metáfora”; e reconhecer que toda aquela história de Big Bang e caldo orgânico pode realmente ter existido, apesar de a bíblia nunca ter mencionado.

O jeito é tentar resgatar a fé, que a própria Igreja Católica já abandonou em diversos momentos da história, pois é ela que faz as pessoas acreditarem em coisas invisíveis ou sem lógica, e é ela que dá conforto, serenidade e esperança para os indivíduos superarem esse mundo cada vez mais perverso.

Enfim, talvez tenha sido um pouco isso que Nanni Moretti quis dizer (ou pelo menos o que eu quis entender).


Minha nota: 7,6
IMDB:  6,9
MelhoresFilmes: 7,0

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