segunda-feira, 23 de abril de 2012

66 - A Família (La Famiglia) – Itália (1987)


A Família (La Famiglia) – Itália (1987)
Direção: Ettore Scola
Roteiro: Graziano Diana; Ruggero Maccari; Furio Scarpelli; Ettore Scola
A trajetória de uma família italiana, desde o início do século 20 até os dias de hoje. Quem faz esta retrospectiva sentimental é o personagem Carlo que, em seus 80 anos de vida, presenciou mortes, nascimentos, revoluções e guerras.


Difícil não se intrigar com esse filme. A Família preza pela delicadeza em diversos aspectos. Nas suas imagens, com movimentos de câmera precisos e nos seus planos subjetivos, como quando Beatrice toma o seu chá, flertando com Carlo, e quando sua irmã, Adriana, faz o mesmo, dessa vez em uma roda de dança.
É delicado, também, nas transformações físicas e psicológicas de seus personagens. São passagens de tempo que fazem ratificar que a vida é assim mesmo, passa que a gente nem sente. E os personagens, são naturais, banais, tal como nós. E estão sujeitos a encontros e desencontros, erros e acertos, certeza e dúvidas.
E, por fim, expõe sua delicadeza ao mostrar a transformação de uma Itália em tempos de (pós)-guerra, a partir das próprias transformações da família. E o melhor de tudo, sentimos as mudanças no país, sem que a câmera saia da casa em um só momento. Às vezes, dá a impressão que vai sair e seguir os personagens que se vão. Mas, tal como Carlo, ela nunca vai, e volta para o universo de sua casa. A câmera é realista, sem precisar sair pelas ruas italianas e flagrar as suas ruínas.
Mas, de tudo isso, o que prevalece é a vontade de fazer uma festa, reunir a família e tirar uma memorável foto.
...
Ah, vale citar as diversas referências que o filme traz, algo que eu, particularmente, gosto muito. Então, para não perder o hábito, fui atrás delas:
1 – Na seqüencia inicial, Carlo cita o poeta italiano Giosuè Carducci: “Il leone repubblicano è diventato il barboncino della Regina” (O leão republicano se tornou o cachorrinho da Rainha). Não achei o texto ou poema que contivesse essa frase. Mas descobri que o poeta é esse aqui e achei esse poema aqui.
2 – No instante 00:13:41, o pai de Carlo diz que eles não vão passear na Praça Esedra. A Piazza Esedra, hoje chamada de Piazza della Repubblica é essa aqui.
3 – No instante 00:17:27, Carlo cita De Sanctis, ao discutir a tentativa do escritor, em “criar um nexo entre a literatura e a sociedade civil”.
4 – No instante 00:17:41, é questionado “qual a meta da arte”. E é citado Tabanelli (que eu não sei quem é, nem achei nada dele).
5 – No instante 00:28:30, é feita uma citação, que eu não consegui identificar o autor: "Um só indivíduo reúne o poder e somente a massa, a multidão, unida em uma pessoa, constitui o Estado. Esta é a geração do grande Leviatã.”
6 – No instante 00:22:59, é citado o compositor italiano Gioachino Rossi. E eu descobri que ele compôs essa música, literalmente, clássica, aqui.
7 – No instante 00:30:34, Adriana disse que vai viajar para um conservatório em Paris, para ter aulas com Marguerite Long. Descobri que ela é pianista e uma das composições dela é essa aqui.
8 – No instante 00:33:43, Carlo diz que trabalha no Liceo Umberto I, que é esse aqui.
9 – No instante 00:35:44, Adriana diz que irá se apresentar na Sala Pleyel, que é uma das maiores salas de concerto de Paris.
10 – No instante 00:45:07, Carlos diz que se tornou adjunto universitário na Cátedra do professor Sapegno. Não dá para ter certeza, mas acho que ele se referia a Natalino Sapegno.
11 – No instante 00:49:08, é citado o verso “Colhe a rosa e chora”, apontado como pertencente da obra Le mie prigione do escritor Silvio Pellico, que tem uma história de vida muito interessante, apesar de trágica.
12 – No instante 00:49:27, o filho de Carlo mostra ao tio o livro “A volta ao mundo por um rapaz de Paris”, do escritor Louis Boussenard. Na Estante Virtual esse livro custa a bagatela de R$ 450,00. Quem quiser, pode comprar aqui.
13 – No instante 00:55:51, o personagem diz que faz parte do “Partido da Ação”, de Ferruccio Parri,  que foi um político anti-fascista.
14 – No instante 00:57:44, uma das mulheres comenta que foi no teatro La Scala para o concerto de Arturo Toscanini, um dos maiores maestros italianos e declaradamente anti-fascista. Vale a pena ler nesse link do Wikipédia, a sessão “oposição ao governo fascista italiano”, para ver que o cabra era retado. Uma de suas apresentações, aqui.
15 – No instante 01:00:09, é citada a canção Casta Diva, da cantora Maria Callas.
16 – No instante 01:08:22, a TV transmite o naufrágio do navio Andrea Doria, que, tempos depois, serviu de inspiração para a composição da Legião Urbana Andrea Doria, onde ele justifica a escolha do título aqui; e inspirou também o filme de suspense Navio Fantasma, cujo modelo do navio representado foi inspirado no Andrea Doria.
17 – No instante, 01:22:33, é interpretado um diálogo relativo aos personagens Alfredo e Violeta, referente à ópera La Traviata, de Verdi (que inclusive, tem uma apresentação de Maria Callas).
18 – No instante 01:24:25, é citada uma frase de Tchekov: “se você tem medo da solidão, não se case”. Outras frases dele podem ser vistas aqui.
19 – No instante 01:27:55, a babá chama a criança para ver na TV o Mago Zurli.
20 – No instante 01:48:34, o filho de Carlo o convida para assistir Bontá Loro, que me parece ser um programa de estúdio, que passa até hoje, como pode ser visto aqui.

Minha nota: 9,0
IMDB:  7,7
MelhoresFilmes: 7,2

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